Ex-agente do FBI: “Deixamos nossos prisioneiros mais importantes nas mãos de amadores”

Originalmente publicado em spiegel.de/international em 23 de janeiro de 2015.

Traduzido pelo Overqüil

Ex-agente do FBI: “Deixamos nossos prisioneiros mais importantes nas mãos de amadores”

US-GUANTANAMO-JUSTICE

O famoso “Camp X-Ray” foi abandonado, mas o complexo prisional em Guantánamo para suspeitos de terrorismo ainda está em operação.

Ali Soufan, um cidadão americano de 43 anos, trabalhou como agente especial para o FBI até 2005 como parte do esforço de combate ao terrorismo. Em março de 2002, ele e um colega foram os primeiros a interrogar Abu Zubaydah, considerado naquele momento o mais importante prisioneiro membro da Al-Qaeda mantido pelos americanos. Como Soufan nasceu no Líbano e falava árabe, ele estava apto para estabelecer uma relação de confiança com o prisioneiro.

Ele estava apto para extrair um vasto volume de informação de Zubaydah. A CIA, no entanto, escolheu Zubayadah como o primeiro prisioneiro em quem testar suas “técnicas avançadas de interrogatório”.  Ele foi forçado a submeter-se a simulação de afogamento (waterboarding) e outros procedimentos cruéis, pelo menos, 83 vezes. Na prisão onde Zubaydah foi interrogado, Soufan conheceu James Mitchell, um dos dois homens mais controversos por trás dos programas de interrogatório da CIA. Em protesto contra os métodos de torturas, Soufan deixou Guantánamo no verão de 2002. (Nota do tradutor: verão no hemisfério norte, portanto em meados do ano de 2002)

Spiegel: Senhor Soufan, durante seu período como um agente do FBI, você passou anos conduzindo interrogatórios. Você também acaba de escrever um livro sobre a tortura nas prisões secretas americanas. Existe alguma surpresa para você no relatório recém publicado pelo Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos sobre a tortura na CIA?
Soufan: Sim, existem algumas coisas que eu não sabia. Que colocamos prisioneiros (incluindo Zubaydah) em uma grande caixa branca por um total de 266 horas – são 11 dias e duas horas – e que nós simplesmente mantivemos um de nossos mais importantes prisioneiros, nosso único detento altamente valioso naquele momento, em total isolamento por 47 dias ao invés de questioná-lo e obter informações importantes. Para falar a verdade, eu não tinha conhecimento dessas coisas.

Spiegel: Existem detalhes no relatório que ainda te chocam, mesmo você tendo conhecimento das alegações há anos?
Soufan: De alguma forma foi difícil para eu continuar lendo, especialmente as passagens sobre a tortura do primeiro prisioneiro importante que interrogamos, o facilitador de atos terroristas Zubaydah. O nível da falta de profissionalismo revelado no relatório é inacreditável. É realmente chocante. Mas eu não devia me espantar, uma vez que 80 por cento desse duro interrogatório foi terceirizada para contratados externos que não tinham noção do que são interrogatórios. Deixamos nossos prisioneiros mais importantes nas mãos de amadores.

Spiegel: Isso também foi novidade para você?
Soufan: Não, eu soube disso anteriormente. Infelizmente eu tive que presenciar isso em primeira mão e escutar as teorias dos contratados. Isso foi horrível. Tem mais um fato interessante: depois do 11 de setembro, queríamos aperfeiçoar a comunicação entre o FBI e a CIA e derrubar a chamada muralha da China entre as duas agências. Afinal, foi a falta de transferência de informação que tornou o 11 de setembro possível. Mas o que lemos agora no relatório é exatamente o oposto: o relatório revela que existia uma clara intenção de apartar o FBI e os militares dos assuntos referentes ao interrogatório dos detentos da al-Qaeda.

Spiegel: Os Estados Unidos fizeram novos inimigos ao publicar todos esses detalhes repulsivos?
Soufan: Nossos inimigos são nossos inimigos. Eu não acredito que acontecerão protestos significantes. Pessoas por todo o mundo sabiam o que nós estávamos fazendo. O mundo sabia que nós torturávamos. E definitivamente isso se encaixou na narrativa de nossos inimigos: independentemente se eles se autodenominam Estado Islâmico, al-Qaeda no Magreb Islamico ou al-Shabab, existem milhares de pessoas ao redor do globo que nos dias de hoje estão aderindo às ideias de Osama Bin Laden. Não tivemos a estratégia acertada e algumas vezes tivemos táticas ruins. Nós colocamos pessoas em macacões laranja, e agora nossos inimigos estão colocando reféns inocentes em macacões laranja. Estamos envolvidos em um conflito assimétrico para conquistar corações e mentes. Não é dessa forma que se conquistam corações e mentes nos mundos árabe e islâmico.  Não é dessa forma que você se opõe à narrativa de regimes autoritários e terroristas.

A masked person holding a knife speaks as he stands in between two kneeling men in this still image taken from an online video released by the militant Islamic State group

Uma captura de tela de um vídeo de propaganda do Estado Islâmico mostrando dois reféns japoneses em macacões laranja.

Spiegel: Quando foi que você percebeu que esses “métodos avançados de interrogatório” estavam sendo usados?
Soufan: Durante o verão de 2002 – em uma prisão secreta em um país que eu ainda não posso denominar, porque isso ainda é informação classificada (secreta). Tudo começou quando esse psicólogo chegou. Até aquele momento estávamos conduzindo os questionamentos tradicionais e interrogatórios de acordo com o princípio da “construção de relacionamento” (rapport). Primeiro você estabelecer uma relação com o prisioneiro – você tem que conquistá-lo – e então ele vai te dizer coisas.

Spiegel: E como isso é feito?
Soufan: Envolvendo-se em um pôquer mental com ele, mas consistentemente apresentado a ele fatos e evidencias de sua culpa, falando sua língua – figurativa e literalmente – algo que nenhuma dessas empresas privadas contratadas pela CIA poderiam fazer. Por exemplo, eu questionei Salim Ahmed Hamdan, motorista de Bin Laden, em Guantánamo. Ofereci chá, tornei possível ele telefonar para sua esposa – essas são coisas que foram prometidas a ele, mas as promessas não foram cumpridas. Durante o interrogatório me deitei ao lado dele no chão, e então conversávamos. Isso é o rapport clássico.

Spiegel: Em 2002 você lidou com Zubaydah, um prisioneiro importantíssimo. Ele havia sido capturado no Paquistão em março de 2002, mas sofreu graves ferimentos à bala durante sua captura. Naquele momento, George W. Bush celebrou a prisão como uma grande vitória. Ele seria o primeiro prisioneiro em quem seriam tentados tais métodos avançados de interrogatório.
Soufan: Sim, todos estavam muito animados, e a ordem veio claramente de Washington que era essencial que ele fosse mantido vivo. Eu e meus colegas do FBI fomos as primeiras pessoas a falar com ele. E Zubaydah cooperou desde o início.

Spiegel: Mesmo ele estando muito mal de saúde?
Soufan: Sim, tão mal que depois tivemos que leva-lo ao hospital, assim ele não morreria em nossas mãos durante o interrogatório. Certamente isso foi algo estranho. Estávamos lutando pela vida de um terrorista que tinha como objetivo declarado matar americanos, mas ele tinha informações das quais precisávamos muito. Meu companheiro e eu permanecemos ao lado de sua cama por dias, cuidamos dele, seguramos sua mão. E conversamos com ele, em árabe. Quando ele estava fraco demais para falar, trabalhávamos com um painel com o alfabeto árabe. Ele cooperou com isso, também.

Spiegel: Você obteve informação relevante usando esse método?
Soufan: Absolutamente. De fato, muito antes das técnicas especiais de interrogatório que foram usadas em Zabaydah. Enquanto ele ainda estava em sua cama no hospital, ele começou a nos dizer coisas. Ele foi o primeiro a identificar Khalid Sheikh Mohammed (que atendia pelo codinome “Mukhtar”) e a nos explicar qual o papel crucial que ele desempenhou nos ataques de 11 de setembro. Quando mostramos a ele retratos, na verdade em relação à outra pessoa, ele subitamente disse “Esse é Mukhtar, o cara que planejou o 11 de setembro”. Ele nos revelou quem eram as pessoas que estavam atuando por trás dos ataques, completamente sem tortura, sem waterboarding, sem que nós tivéssemos perguntado ou antecipado isso.

Spiegel: O preidente Bush posteriormente sugeriu que essas coisas foram resultado de bem sucedidas “técnicas avançadas de interrogatório”, em outras palavras, do programa de interrogatório. A CIA afirma até hoje que esse foi o caso.
Soufan: Isso não é verdade. O pessoal contratado pela CIA não tinha chegado à prisão secreta naquele momento. Até agora eu não tenho conhecimento de nenhuma informação relevante que foi obtida através do uso de tortura. O relatório do senado também confirma isso.

Spiegel: O que aconteceu com Zubaydah depois que ele foi liberado do hospital?
Soufan: Enquanto ele ainda esta internado no hospital, a CIA nos comunicou que as táticas usadas com ele iriam mudar. Os interrogatórios de Zubaydah seriam agora orquestrados pelo pessoal contratado pela CIA, sem a presença do FBI na sala. Essa mudança na estratégia era contraditória com todos os sucessos que nós tínhamos alcançado até o momento. Tentamos oferecer-lhes acordos; que foram recusados sem discussão. Os contratados tinham uma ideia fixa: eles estavam convictos que Zubaydah nos tinha fornecido apenas informações inúteis até então, e mantido em segredo as coisas importantes.

Spiegel: E então o novo contratado da CIA, o psicólogo James Mitchell, chegou ao local dessa prisão secreta?
Soufan: Sim, apesar de que eu não poder confirmar esse nome para você. Como um ex-agente do FBI ainda estou constrangido a não violar a confidencialidade. E oficialmente o nome desse psicólogo permanece como informação confidencial. Isto é um absurdo, mas é assim que as coisas são. No meu livro eu denominei o psicólogo como Boris, então vamos chamá-lo assim também. Boris, após Zubaydah receber alta do hospital, assumiu imediatamente. O prisioneiro foi levado a uma sala completamente branca, sem luz solar ou janelas, apenas quatro lâmpadas de halogêneo no teto. O canto da sala de interrogatório também foi isolado com uma cortina branca. Todas as pessoas que ele viu, entretanto, estavam vestidas de preto: uniformes, sapatos, luvas, óculos – tudo era preto. Foi-nos explicado que o único contato humano que ele teria seria com seu interrogador.

Spiegel: Você falou com Boris, o psicólogo?
Soufan: Sim, e ele me disse que forçaria Zubaydah a se submeter. Ele deveria ver seu interrogador como uma espécie de deus, alguém capaz de controlar seu sofrimento. Assim sendo, Boris me disse, ele rapidamente se tornaria maleável. Zubaydah, disse, precisaria entender que ele havia desperdiçado sua chance de cooperar e que nós não faríamos mais o seu jogo. Quando eu disse que ele de fato já havia divulgado informações, ele não se interessou.

Spiegel: De acordo com o relatório, a CIA implementou seus novos métodos de interrogatório na metade de abril de 2002. Você ainda estava lá nessa época?
Soufan: Não na sala, mas eu estava lá, sim. Primeiro eles o deixaram nu. Aquilo iria o humilhar, disse Boris, e ele poderia cooperar a fim de ter suas roupas de volta. Eles também o bombardearam com música alta. Ele também poderia falar a fim de fazer a música parar, Boris disse. O mesmo rock era tocado de novo e de novo, todo o dia. Até mesmo na sala de observação a musica nos fazia sentir mal. Então Boris decidiu testar a privação de sono. Mas isto também falhou em aumentar a vontade de Zubaydah em cooperar. A pior parte para nós foi assistir, por dias, métodos que nenhum interrogador decente nuca deveria considerar.

Spiegel: Você foi o único a ver as coisas dessa forma naquele momento?
Soufan: Não, meu parceiro e também muitos oficiais da CIA viram as coisas da mesma forma, e eles entraram em contato com o quartel general em Langley na busca de instruções.

Spiegel: Você voltou a ver Zubaydah posteriormente?
Soufan: Sim, depois que eles não tiveram sucesso com seus métodos, nos deixaram falar com ele novamente. Isso foi difícil. Ele não entendia o que estava acontecendo ali. Nem nós estávamos entendendo. Ele estava nu e nós demos uma tolha para que ele pudesse se cobrir. Demos uma cadeira a ele, assim ele poderia se sentar, e oferecemos água. Ele falou conosco, e nos revelou alguns detalhes – um alegado plano para a construção de uma ‘bomba suja’, uma bomba radioativa, por exemplo. Depois disso, os terceirizados tentaram retomar o controle. A coisa toda foi muito frustrante, não apenas para a gente, mas também para o pessoal da CIA no local. Mais uma vez, escrevemos para nossos superiores dizendo que aquilo não poderia continuar assim. Essas cartas de protesto podem ser agora lidas no relatório do senado. O relatório também cita que alguns funcionários da CIA tinham lágrimas nos olhos enquanto assistiam Zubaydah ser afogado (waterboarded) pelos terceirizados. Mas tudo isso não alterou em nada a situação.

Spiegel: Quando você decidiu sair?
Soufan: No fim de maio, entrei em contato com o quartel general do FBI e contei a eles sobre a privação de sono, a caixa, a música alta. A resposta do FBI foi clara: “Não fazemos esse tipo de coisa. Volte.” Isso foi totalmente frustrante, e no fim voamos de volta pros Estados Unidos.

Spiegel: Como você explica o fato de a CIA ter terceirizado o interrogatório dos presos mais importantes dos Estados Unidos para psicólogos incompetentes, e como todos os mecanismos de controle inerentes ao sistema falharam?
Soufan: Não era toda a CIA. Em última instância, acredito que a decisão era tomada por apenas algumas pessoas, que escolheram esse curso de ação por razões políticas, razões de segurança, e razões de negócios. Muitos dos oficiais da CIA estavam tão horrorizados quanto eu. A propósito, as massivas queixas deles levaram em 2004 a uma investigação e ao relatório muito crítico produzido pelo inspetor geral da CIA John Helgerson.

Spigel: Mas até hoje a CIA ainda não se afastou do que ela fez. Ao contrário, ela continua defendendo tais métodos como necessários no combate ao terrorismo.
Soufan: Sim, eles não apenas deram carta branca por meses aos dois psicólogos e depois consideraram a coisa toda como fracassada e cruel. Os dois psicólogos foram autorizados a conduzir o seu programa de interrogatórios sem sentido durante quatro anos, de 2002 a 2006. E eles ganharam 80 milhões de dólares para fazer isso. É inacreditável.

Spiegel: Que conclusões podem ser tiradas do relatório do senado?
Soufan: A coisa boa é que o relatório não pode ser descartado. Não é um relatório político, é uma impressionante coleção de fatos: centenas de milhares de documentos e de despachos da CIA foram analisados. O relatório tem impressionantes 6.800 páginas, incluindo 38 mil notas de rodapé. Isso é uma enorme conquista. Até agora nós vimos pouco menos de 600 páginas, não chega a 10 por cento. É algo que precisamos continuar tendo em mente. Mas nós também mostramos, como uma nação, que estamos preparados para iluminar extensivamente esse lado escuro de nossa história. Um voto bipartidário levou à investigação, e um voto bipartidário levou à quebra do sigilo. Chamar a atenção para esse capítulo não foi uma decisão solitária tomada pela senadora Dianne Feinstein (Democrata) – ela e outros, como o senador John McCain (Republicano) têm de ser aplaudidos por assumirem um imenso risco político por fazer a coisa certa.

Spiegel: Esses que conduziram as torturas e esses que aprovaram o programa deveriam ser julgados em um tribunal?
Soufan: Eu não acredito que esse capítulo possa ser tratado por meio de ações legais no ambiente político de hoje. No entanto, nós temos que garantir que esses métodos de interrogatório nunca mais sejam usados. Todos nós, independente da linha partidária, devemos ler intensivamente esse relatório, levar seus resultados a sério e aprender com eles.

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