Primavera Curda: pelo que o PKK está lutando?

Originalmente publicado em channel4.com/news em 8 de setembro de 2014.

Traduzido pelo Overqüil

Primavera Curda: pelo que o PKK está lutando?
Por Brian Whelan

O PKK pode desempenhar um papel decisivo na batalha contra o Estado Islâmico, mas suas raízes como uma guerrilha marxista causam preocupação no Ocidente. O Channel 4 News observa como o grupo está buscando uma Primavera Curda.

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Depois de mais de 30 anos de uma anacrônica insurgência marxista-leninista contra o estado turco, os militantes do PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos) dizem agora que estão rejeitando o nacionalismo, as estratégias militares maoístas e até a ideia de um estado-nação – adotando ao invés disso os ensinamentos de um obscuro acadêmico norte-americano.

Depois que o líder do PKK, Abdullah Ocalan, foi capturado e preso em 1999 ele começou a repensar a obtusa estratégia marxista-leninista, a qual seguiu desde a fundação do grupo em 1978, e a subsequente violenta guerra de guerrilha deflagrada em 1984 que deixou milhares de mortos.

Ocalan descobriu na prisão os escritos de Murray Bookchin, um acadêmico anarquista e polemista de Nova Iorque, cujas teorias da ‘ecologia social’ e do ‘municipalismo libertário’ permaneceram obscuras mesmo entre sua própria corrente política até sua morte em 2006.

Combinando essas ideias com os ensinamentos de Fernand Braudel e Friedrich Nietzsche, Ocalan anunciou a nova direção que acredita que o PKK deve tomar.

Em seu novo manifesto ele rejeita a violência política, o nacionalismo e até mesmo a ideia do estabelecimento de um estado nacional Curdo, declarando: “O nacionalismo ao qual devíamos nos opor contaminou a todos nós”.

Nova mentalidade

No norte de Londres, membros da comunidade curda passaram anos estudando a nova ideologia proposta por Ocalan e mantendo debates sobre como afastar sua luta de seu passado autoritário.

Memed Askoy, uma ativista da comunidade curda, disse ao Channel 4 News como ele vislumbra uma região curda tomando forma, compreendendo regiões autônomas na Turquia, Iraque e Síria, baseado na ideia de Bookchin do ‘municipalismo libertário’.

“Existiu um grande impulso nos últimos 10 anos para se livrar da mentalidade do estado-nação do antigo PKK e desenvolver quadros para ter uma mentalidade ecológica de igualdade de gêneros democrática”, explica.

“Oito regiões autônomas são propostas para o Curdistão do Norte. Existem atualmente – organizando a população ‘debaixo para cima’ em uma pirâmide invertida – assembleias de rua, vizinhança, bairro e cidade; cada uma envia representantes para o Congresso da Sociedade Democrática’, explica.

“Existem atualmente três regiões autônomas (cantões) no Curdistão do Oeste (Síria) e cada uma tem um parlamento, um primeiro-ministro, ministros e sua própria força de defesa. Essas regiões aplicam uma economia de troca, onde possível, e tem formado comunas em todos os níveis para resolver seus problemas”.

“Sonho”

Mas depois de anos de conflito sangrento, que deixou mais de 40 mil mortos, poderia o idealismo do líder encarcerado do PKK ter alguma influência sobre as forças que agora combatem o estado Islâmico na Síria?

Memed explica que existem conflitos internos no PKK sobre essa questão: “Tem sido difícil para as pessoas abrir mão de um Curdistão unificado, independente, socialista – ou um estado Curdo.

“A reformulação por Ocalan do socialismo democrático e como isso pode ser incorporado à autonomia democrática se revelou com um sonho para muitos apenas alguns anos atrás.”

“Agora, se tornou evidente, com a revolução no Curdistão do Oeste e com a inabilidade do KRG (Governo Regional do Curdistão) de se autodefender, de que esta seria a única solução possível em uma região que é repleta de sectarismo, nacionalismo e patriarcalismo.”

Assim como Ocalan, Murray Bookchin buscou um novo reduto político já com idade avançada – ele por fim rejeitou o movimento anarquista do qual havia se tornado um porta-voz e estava aspirando ao comunalismo.

Ocalan tentou estabelecer contato com Murray Bookchin enquanto este ainda estava vivo, entretanto ele estava muito debilitado na ocasião para se corresponder. Agora, seu colaborador por toda a vida, Janet Biehl, continua seu trabalho ideológico com a ecologia social e examina a aplicação Curda de suas ideias.

“Podemos dizer que, em geral, o movimento está permanecendo fiel às ideias e ideais de Ocalan, e vem discutindo isso em palestras, seminários, conferências, na mídia e entre eles mesmos”, explica Mamed.

“Você pode frequentemente ouvir citações ou passagens de Adorno, Bookchin, Arendt e Nietzsche nos círculos Curdos!”

‘Marginalizado e criminalizado’

O PKK está atualmente engajado em um processo de paz e cessar-fogo com o governo turco e espera ver Ocalan finalmente liberto.

Ocalan declarou em 2006 que “o PKK não deve usar armas a menos que seja atacado” e conclamou por uma “união democrática entre turcos e curdos”, um rompimento drástico com sua anterior “insurgência em três fases”, tomada diretamente do líder Mao.

Memed admite que a aderência a uma ideologia periférica e suas raízes marxistas impedem o PKK de conseguir apoio da comunidade internacional para a luta contra as forças do Estado Islâmico.

“O PKK tem se recusado a ‘fazer o jogo’ da comunidade internacional em muitas ocasiões; a captura de Ocalan e seu pedido de paz seguinte à captura é uma delas.”

“Sendo, de fato, um inimigo em decorrência de sua luta contra o estado turco, e por conta da divisão entre curdos que deu ao KRG o papel de ‘curdos bons’, o PKK vem sendo consistentemente marginalizado e criminalizado.

“Ele não se encaixa à grande narrativa escrita pela comunidade internacional como Islamismo ou grupos por ele fomentados.”

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Sobre Overqüil Comtrema

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