Contraleitura: Michael Löwy / André Breton

lowy breton

Michael Löwy [em A estrela da manha; surrealismo e marxismo, Civilização Brasileira, 2002, tradução de Eliana Aguiar, pp. 34-5]

“Em 1938, Breton faz uma visita a Trotski no México. Eles redigirão juntos um dos documentos mais importantes da cultura revolucionária do século XX: o apelo “Por uma arte revolucionária independente”, que contém a célebre frase que se segue: “para a criação cultural a revolução deve, desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coerção, nenhum traço de comando! Os marxistas podem, aqui, marchar de mãos dadas com os anarquistas…”. Conforme se sabe, esta passagem é da lavra do próprio Trotski, mas pode-se supor também que é um produto das longas conversações entre eles às margens do lago Patzcuaro (Schwarz 1977; Roche 1986).

“Mas foi no pós-guerra que a simpatia de Breton pela anarquia se manifestou mais claramente. Em Arcano 17 (1947) ele relembra a emoção que sentiu quando, ainda criança, descobriu em um cemitério um túmulo com esta simples inscrição: “Nem Deus Nem Mestre”. Ele enuncia a esse respeito uma reflexão geral: “Acima da arte, da poesia, queiramos ou não, tremula também uma bandeira ora vermelha ora negra” – duas cores dentre as quais ele se recusa a escolher uma.”


André Breton [em Arcanum 17, Green Integer, 2004, tradução do francês por Zack Rogow, pp. 40-1, e aqui traduzido do inglês pelo Overqüil]

“Nunca me esquecerei do alívio, da exaltação, e do orgulho provocado, numa das primeiras vezes quando criança fui levado a um cemitério – dentre tantos monumentos funerários deprimentes e ridículos – pela descoberta de uma simples peça de granito gravada em letras maiúsculas com o magnifico lema: NEM DEUS NEM MESTRE. Poesia e arte terão sempre uma fraqueza por tudo que transfigura o homem naquele apelo desesperado, indomável, que vez ou outra o faz tomar a decisão risível de arriscar a vida. O fato é que acima da arte, acima da poesia, queiramos ou não, tremula uma bandeira alternadamente vermelha e negra.”

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