A Ascensão do Estado Islâmico, por Patrick Cockburn

Em seu último livro, The Rise of Islamic State: ISIS and the New Sunni Revolution, Patrick Cockburn confronta a questão de como as coisas deram errado no Oriente Médio, analisando o impacto da política externa dos estados ocidentais na região.

Patrick Cockburn é atualmente correspondente do Independent e já trabalhou para o Financial Times. É autor de três livros sobre a história recente do Iraque, incluindo The Occupation: War and Resistance in Iraq. Cockburn venceu o prêmio Martha Gallhorn em 2005, o prêmio James Cameron em 2005, e o Orwell Prize for Journalism em 2009, entre outros.

O Overqüil traduz o capítulo de abertura do livro, publicado no fim de 2014.

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A Ascensão do ISIS

Atualmente, movimentos do tipo al-Qaeda dominam uma vasta área ao norte e oeste do Iraque, e ao leste e norte da Síria, centenas de vezes maior que qualquer território já controlado por Osama bin Laden. É desde a morte de bin Laden que filiais da al-Qaeda, ou clones seus, têm alcançado grandes êxitos, incluindo a captura de Ragga na parte oriental da Síria, a única capital de província no país que caiu perante os rebeldes, em março de 2013. Em janeiro de 2014, o ISIS (NT: Estado Islâmico no Iraque e na Síria) tomou o controle de Fallujah a apenas 40 milhas (NT: aprox. 64 km) a oeste de Bagdá, uma cidade que ganhou fama ao ser cercada e atacada pelos fuzileiros navais americanos dez anos atrás. Em alguns meses eles também capturaram Mosul e Tikrit. As linhas de batalha podem continuar a mudar, mas a expansão em geral de seu poder será difícil de reverter.  Com seus ataques rápidos e de várias frentes por todo o centro e norte do Iraque, em junho de 2014, os militantes do ISIS substituíram a al-Qaeda como o grupo jihadista mais poderoso e efetivo do mundo.

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Tais desenvolvimentos surpreenderam a muitos no ocidente, incluindo políticos e especialistas cujas visões sobre o que estava acontecendo geralmente pareciam ser ultrapassadas pelos acontecimentos. Uma das razões para isso era o alto risco para jornalistas e observadores externos visitarem as áreas onde o ISIS estava operando, por conta do perigo extremo de serem sequestrados ou assassinados. “Aqueles que costumavam proteger a mídia estrangeira não podem mais sequer proteger a si mesmos”, contou-me um intrépido correspondente, explicando porque ele não poderia retornar para a Síria sob o domínio rebelde.

Essa falta de cobertura tem sido conveniente para os Estados Unidos e outros governos ocidentais, uma vez que permitiu a eles encobertar em que medida a “guerra ao terror” tinha fracassado tão catastroficamente nos anos que sucederam o 11 de setembro. Esse fracasso também é dissimulado pelos enganos e auto-enganos por parte dos governos. Discursando em West Point (NT: Academia Militar dos Estados Unidos, localizada em West Point, estado de Nova Iorque) sobre o papel da América no mundo, em 28 de maio de 2014, o presidente Barack Obama disse que a principal ameaça aos EUA não vinha mais do núcleo da al-Qaeda, mas das “filiais descentralizadas da al-Qaeda e dos extremistas, muitas com agendas focadas nos países onde operam”. Ele acrescentou que “com o transbordo da guerra civil síria para além das fronteiras, a capacidade dos grupos extremistas, endurecidos pelas batalhas, de vir atrás de nós só aumenta”. Isso era verdade, mas a solução de Obama para o perigo era, como explicitou, “fornecer suporte para aqueles da oposição síria que oferecessem a melhor alternativa aos terroristas”. Em junho ele estava solicitando ao congresso 500 milhões de dólares para treinar e equipar membros “devidamente examinados” da oposição síria. É bem aqui que existiu uma real intenção de enganar, porque, como Biden (NT: Joe Biden, vice-presidente americano) tinha admitido cinco meses antes, a oposição militar síria é dominada pelo ISIS e por Jabhat al-Nursa, o representante oficial da al-Qaeda, além de outros grupos jihadistas extremos. Na realidade, não existe uma linha divisória entre eles e os oposicionistas supostamente moderados aliados dos americanos.

Um oficial do serviço de inteligência de um país do oriente médio vizinho à Síria me contou que os membros do ISIS “dizem que sempre ficam contentes quando armas sofisticadas são enviadas para qualquer tipo de grupo anti-Assad, porque eles sempre podem obter tais armas mediante o uso de força ou com pagamentos em dinheiro”. E eles não se gabam por nada. Armamentos fornecidos pelos aliados dos EUA, como Arábia Saudita e Qatar, para forças anti-Assad na Síria são frequentemente capturadas no Iraque. Eu experimentei um pequeno exemplo das consequências desse influxo de armas antes ainda da queda de Mosul, quando, no verão de 2014, tentei agendar um voo para Bagdá na mesma, e eficiente, empresa aérea europeia na qual eu já tinha voado há um ano antes. Foi-me dito que haviam descontinuado voos para a capital iraquiana, porque temiam que os insurgentes tivessem obtido lança-mísseis antiaéreos originalmente fornecidos para forças anti-Assad na Síria e que poderiam ser usados contra aeronaves comerciais que voassem em direção ao Aeroporto Internacional de Bagdá. O apoio ocidental para a oposição Síria pode ter falhado em derrubar Assad, mas foi bem sucedida em desestabilizar o Iraque, como previam há tempos políticos iraquianos.

O fracasso da “guerra ao terror” e o ressurgimento da al-Qaeda é explicado por um fenômeno que se tornou evidenciou horas depois dos ataques de 11 de setembro. Os primeiros movimentos de Washington deixaram claro que a guerra anti-terror seria travada sem nenhuma confrontação com a Arábia Saudita ou o Paquistão, dois aliados próximos dos EUA, apesar do fato de que sem o envolvimento desses dois países seria improvável que o 11 de setembro acontecesse. Dos 19 sequestradores daquele dia, 15 eram sauditas. Bin Laden veio de uma elite saudita. Documentos oficiais americanos subsequentes enfatizam repetidamente que o financiamento para a al-Qaeda e grupos jihadistas vieram da Arábia Saudita e de monarquias do Golfo. Quanto ao Paquistão, seu exército e serviço militar desempenharam um papel central desde o início dos anos 90 impulsionando o Talibã ao poder no Afeganistão, onde eles hospedaram bin Laden e a al-Qaeda. Depois de um breve hiato, durante e depois o 11 de setembro, o Paquistão reatou seu apoio ao Talibã afegão. Falando do papel central do Paquistão no apoio ao Talibã, o falecido Richard C. Holbrooke, representante especial dos EUA para o Afeganistão e Paquistão, disse: “Podemos estar lutando contra o inimigo errado no país errado”.

A importância da Arábia Saudita na ascensão e retorno da al-Qaeda é frequentemente mal  compreendida e subestimada. A Arábia Saudita é influente porque seu petróleo e imensa riqueza a tornam poderosa no Oriente Médio e além. Mas não são apenas recursos financeiros que a tornam um ator tão importante. Outro fator é sua propagação do Wahhabismo, a versão fundamentalista do século XVIII do Islã que impõe a lei sharia, relega às mulheres o status de um cidadão de segunda classe, e considera muçulmanos xiitas e sufistas como não-muçulmanos que devem ser perseguidos assim como os cristãos e os judeus.

Essa intolerância religiosa e autoritarismo político, que por sua prontidão em usar a violência guarda muitas semelhanças com o fascismo europeu dos anos 30, está piorando ao invés de melhorar. Há poucos anos, por exemplo, um saudita que montou um website liberal no qual clérigos podiam ser criticados foi sentenciado a mil chibatadas e sete anos de prisão. A ideologia da al-Qaeda e do ISIS absorve muitíssimo do Wahhabismo. Os críticos dessa nova tendência no Islã, de qualquer parte do mundo muçulmano, não sobrevivem por muito tempo; eles são forçados a fugir ou são assassinados. Denunciando líderes jihadistas em Kabul, em 2003, um editor afegão os descreveu como “fascistas santos” que estavam fazendo mau uso do Islã como “um instrumento para tomar o poder”. Sem surpresa, ele foi acusado de insultar o islã e teve que deixar o país.

Um desenvolvimento impressionante no mundo islâmico nas décadas recentes é a forma como o Wahhabismo tem se tornado a principal corrente no islamismo sunita. Em um país após outro a Arábia Saudita tem injetado dinheiro para o treinamento de sacerdotes e construção de mesquitas. Um resultado disso é a disseminação do conflito sectário entre sunitas e xiitas. Estes últimos se veem como alvo de crueldades sem precedentes, da Tunísia à Indonésia. Tal sectarismo não está confinado às aldeias ao redor de Alepo ou em Punjab (NT: região que fica na fronteira entre Índia e Paquistão); ele está envenenando as relações entre as duas facções em cada agrupamento islâmico. Um amigo muçulmano em Londres me disse: “Percorra as agendas telefônicas de qualquer sunita ou xiita na Grã-Bretanha e você encontrará pouquíssimos nomes pertencentes a pessoas de fora de suas próprias comunidades”.

Mesmo antes de Mosul, o presidente Obama estava começando a perceber que os grupos do tipo al-Qaeda eram muito mais fortes do que haviam sido anteriormente, mas sua receita para lidar com eles repete e agrava os erros anteriores. “Nós precisamos de parceiros ao nosso lado para combater os terroristas”, ele disse para sua plateia em West Point. Mas quem seriam esses parceiros? Arábia Saudita e Qatar não foram mencionados por ele, visto que permanecem aliados próximos e ativos dos EUA na Síria. Obama, ao invés, destacou “Jordânia e Líbano, Turquia e Iraque” como parceiros a serem auxiliados para “enfrentar os terroristas que atuam para além das fronteiras da Síria”.

Existe algo de absurdo sobre isso, já que os jihadistas estrangeiros na Síria e Iraque, as pessoas que Obama admite ser a maior ameaça, só podem adentrar tais países porque são capazes de atravessar a fronteira Sírio-Turca de 510 milhas de extensão (NT: mais de 820 km) sem entraves por parte das autoridades turcas. Arábia Saudita, Turquia, e Jordânia podem estar agora assustadas pelo monstro Frankenstein que ajudaram a criar, mas há pouco que eles podem fazer para contê-lo. Um propósito tácito da insistência dos EUA para que a Arábia Saudita, EAU (NT: Emirados Árabes Unidos), Qatar, e Bahrein tomem parte ou auxiliem nos ataques aéreos na Síria em setembro era forçá-los a romper suas antigas ligações com os jihadistas na Síria. Sempre existiu algo de fantástico sobre os EUA e seus aliados ocidentais terem se unindo com as monarquias absolutistas tecnocráticas sunitas da Arábia Saudita e do Golfo para espalhar a democracia e fortalecer os direitos humanos na Síria, Iraque e Líbia. Os EUA era uma potência mais fraca no Oriente Médio em 2011 do que haviam sido em 2003, porque os seus exércitos falharam em atingir seus objetivos no Iraque e no Afeganistão. Chegam as revoltas de 2011, elas eram o sectarismo jihadi e sunita, ala militarizada dos movimentos rebeldes que receberam maciças injeções de dinheiro dos reis e emires do Golfo. Os adversário seculares, não-sectários, dos estados policiais há muito estabelecidos, foram logo marginalizados, reduzidos ao silêncio, ou mortos. A imprensa internacional foi muito lenta para identificar em como a natureza dessas revoltas tinha mudado, embora os islamitas tenham sido muito abertos sobre suas prioridades sectárias: na Líbia, um dos primeiros atos dos rebeldes triunfantes foi pedir a legalização da poligamia, o que tinha sido banido sob o regime anterior.

ISIS é o filho da Guerra. Seus membros buscam reformular o mundo ao seu redor através de atos de violência. A mistura tóxica, mas potente, de crenças religiosas extremistas e habilidades militares é o resultado da guerra no Iraque desde a invasão dos EUA de 2003 e da guerra na Síria desde 2011. Tão logo a violência no Iraque foi declinando, a guerra foi revivida pelos árabes sunitas na Síria. É consenso do governo e da mídia no ocidente que a guerra civil no Iraque foi reacendida pelas políticas sectárias do primeiro ministro iraquiano Nouri al-Malik em Bagdá. Na verdade, foi a guerra na Síria que desestabilizou o Iraque quando grupos jihadistas como o ISIS, então chamado al-Qaeda no Iraque, fundou um novo campo de batalha onde puderam lutar e prosperar.

Foram os EUA, a Europa e os seus aliados regionais na Turquia, Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, que criaram as condições para o surgimento de ISIS. Eles continuaram a guerra indo à Síria, embora fosse óbvio a partir de 2012 que Assad não cairia. Ele nunca controlou menos do que treze das quatorze capitais das províncias sírias e era apoiado pela Rússia, Irã e Hezbollah. Não obstante, o único termo para a paz que lhe foi oferecido nas conversações de Genebra II em janeiro de 2014 foi que deixasse o poder. Ele não estava disposto a partir, e as condições ideais foram criadas para o ISIS prosperar. Os EUA e seus aliados estão agora tentando converter as comunidades sunitas no Iraque e na Síria contra os militantes, mas isso será difícil de fazer enquanto esses países estão convulsionados pela guerra.

O ressurgimento de grupos do tipo al-Qaeda não é uma ameaça confinada à Síria, o Iraque e seus vizinhos mais próximos. O que está acontecendo nesses países, combinado com o crescente domínio das crenças intolerantes e excludentes Wahhabita dentro da comunidade sunita em todo o mundo, significa que todos os 1,6 bilhão de muçulmanos, quase um quarto da população do mundo, serão cada vez mais afetados. Parece improvável que os não-muçulmanos, incluído muitos no ocidente, não serão afetados pelo conflito. O atual ressurgimento do jihadismo, tendo alterado o terreno político no Iraque e na Síria, já está causando efeitos de longo alcance sobre a política global, com consequências desastrosas para todos nós.


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The Rise of Islamic State: ISIS and the New Sunni Revolution, Patrick Cockburn, Verso Books, Londres, 2014, 192 páginas.

Contents

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Preface: The Hundred Days

1. The Rise of ISIS
2. The Battle of Mosul
3. In Denial
4. Jihadists on the March
5. The Sunni Ressurgence in Iraq
6. Jihadis Hijack the Syria Uprising
7. Saudi Arabia Tries to Pull Back
8. If It Bleeds It Leads
9. Shock and War

Afterword
Acknowledgements
Index


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