#Aceleracionismo

O Overqüil selecionou e traduziu alguns trechos do capítulo introdutório da coletânea #Accelerate: The Accelerationist Reader, publicada em 2014, que busca apresentar ao leitor algumas das principais contribuições dessa ‘tradição’ que ganhou maior destaque a partir da publicação, em 2013, do Manifesto Aceleracionista (com uma tradução aqui).

O livro pode ser adquirido aqui, ou baixado gratuitamente aqui.

Desnecessário seria introduzir uma introdução. Abaixo, o excerto traduzido pelo Overqüil.


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[#Accelerate: The Accelerationist Reader – Editado e Organizado por Robin MacKay e Armen Avanessian, Urbanomic, Londres, 2014, 448 páginas]

Introdução [trad. Overqüil]

Robin Mackay
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Armen Avanessian

O aceleracionismo é uma heresia política: é a insistência de que a única resposta política radical ao capitalismo não é o protesto, o rompimento, ou crítica, nem é aguardar seu desfalecimento fruto das próprias contradições, mas sim acelerar suas tendências desenraizantes, alienantes, decodificantes, abstratizantes. O termo foi introduzido na teoria política para designar determinado alinhamento niilista do pensamento filosófico com os excessos da cultura capitalista (ou anticultura), encarnado nos escritos que buscavam certa imanência com esse processo de alienação. O status inquieto desse impulso, entre a subversão e o consentimento, entre análise realista e exacerbação poética, fez do aceleracionismo uma postura teórica fortemente contestada.

Na base do pensamento aceleracionista repousa a assertiva de que crimes, contradições e absurdos do capitalismo devem ser confrontados com uma atitude progressiva, política e teoricamente, em relação a seus elementos constituintes. O aceleracionismo busca se alinhar com a dinâmica emancipatória que quebrou os grilhões do feudalismo e introduziu a constante ramificação do alcance das possibilidades práticas características à modernidade. O foco da maior parte do pensamento aceleracionista está no exame da suposta ligação intrínseca entre essas forças transformadoras e a axiomática do valor de troca e da acumulação de capital que formata a sociedade planetária contemporânea.

Dois riscos principais acompanham tal postura: de um lado, uma resignação cínica a uma politique du pire, uma política que espera pelo pior e pode apenas pensar o futuro enquanto um apocalipse e uma tabula rasa; e, de outro, a substituição da insistência de que o capitalismo vai morrer por conta de suas próprias contradições, pela defesa do mercado – cujo suposto radicalismo é indistinguível de uma aquiescência passiva na qual foi depositada o poder político.

Tais caricaturas convenientes, entretanto, obstruem a consideração de um conjunto diverso de ideias unidas pela reivindicação de um verdadeiro pensamento progressivo – um pensamento que não reconhece a autoridade, a ideologia ou as instituições herdadas – somente é possível por meio de uma filosofia realista e orientada-pelo-futuro; e que apenas uma política construída a partir dessa base pode abrir novas perspectivas para o projeto humano, e para as aventuras sociais e políticas que estão por vir. Essa hipótese de que estamos no início de um projeto político, mais do que um frígido fim da história, parece hoje crucial a fim de evitar a depressão social endêmica e a míngua das expectativas face à homogeneização cultural global, mudança climática e a corrente crise financeira. Diante de tais desenvolvimentos, e da indiferença dos mercados às suas consequências humanas, até os mais agudos progressistas são fortemente impelidos a argumentar que o capitalismo continua sendo o veículo sine qua non da modernidade e do progresso; e ainda assim a resposta política a essa situação geralmente parece olhar mais para trás do que para frente.

A aflição parece ser o sentimento dominante na esquerda contemporânea, cuja crise imita perversamente seu inimigo, consolando a si mesma tanto com os pequenos prazeres da estridente denunciação, dos protestos intermediados ou das rupturas lúdicas, quanto com a noção pouco crível de que mantendo uma sinistra vigilância ‘crítica’ sobre a total submissão da vida humana sob o capital, dentro de seu refúgio teórico, ou da névoa de ‘indeterminação’ auto-congratulatória da arte contemporânea, consiga constituir resistência. O neoliberalismo hegemônico defende que não existe alternativa, e o pensamento estabelecido da esquerda, com medo de desistir das ‘grande narrativas’ iluministas, reticente de qualquer aparato cuja infraestrutura tecnológica foi maculada pelo capital, e alérgico a todo patrimônio civilizacional que amontoa e descarta como ‘pensamento instrumental’, falha patentemente em oferecer a alternativa que insiste ser possível, exceto na forma de histórias contrafactuais e intervenções totalmente localistas dentro de um sistema maior que é descentralizado, globalmente integrado, e na melhor das hipóteses, indiferente a elas. O entendimento geral é de que se temos modernidade=progresso=capitalismo=aceleração, então a única resistência possível equivale à desaceleração, seja através de uma fantasia de uma coletividade orgânica autossuficiente, ou através de um recuo solitário a um miserabilismo e aos alertas sagazes contra as ameaçadoras contrafinalidades do pensamento racional.

(…)

Dos social-democratas críticos aos revolucionários maoistas, dos megafones do movimento Occupy até os sussurros pós-Escola-de-Frankfurt, o slogan ideológico é: Deve existir uma saída! E então, dada a real submissão da vida sob as relações capitalistas, o que está faltando, impedido pelas obsessões reacionárias de pureza, humildade, e ligação sentimental aos rituais individualmente gratificantes de crítica e protesto, e suas frágeis e efêmeras formas de coletividade? Precisamente algum critério pragmático para a identificação e seleção dos elementos do sistema que podem ser eficazes em uma concreta transição para outra vida além das iniquidades e impedimentos do capital.

É nesse contexto de tamanha dificuldade que o aceleracionismo recentemente emergiu, novamente, como uma opção de esquerda. Desde a publicação em 2013 do Manifesto por uma Política Aceleracionista, o termo tem sido adotado para denominar um grupo convergente de novas empreitadas teóricas que visam conceptualizar o futuro fora das críticas tradicionais e das ‘soluções’ regressivas, desacelerativas ou restaurativas. No advento dos novos realismos filosóficos dos anos recentes, realizam tal tarefa através da recusa da retórica da finitude humana em favor de um Prometeanismo e racionalismo renovados, da afirmação que a crescente imanência do social e da técnica é irreversível e – de fato – desejada, e do compromisso com o desenvolvimento de novos entendimentos para a complexidade que isso traz para a política contemporânea.

(…)

Através da reconstrução da trajetória histórica do aceleracionismo, este livro busca expor suas problemáticas centrais, explorar sua genealogia histórica e conceitual, e exibir a gama de possibilidades ali presentes, de forma a avaliar os potenciais do aceleracionismo, tanto como configuração filosófica, quanto como proposição política.

(…)

[Leia também: Crítica do Miserabilismo Transcendental, por Nick Land e Nick Land – Fanged Noumena; Collected Writings 1987-2007]

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Sobre Overqüil Comtrema

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