Nick Land: Crítica do Miserabilismo transcendental

Crítica do Miserabilismo Transcendental [Traduzido pelo Overqüil]

Por Nick Land [em Fanged Noumena – pp 623-7]

Existe uma tendência agregadora entre os neomarxistas para finalmente enterrar qualquer aspiração economicista positiva (‘libertar as forças produtivas da relação de produção capitalista’) e instalar uma ilimitada aflição cósmica em seu lugar. Quem ainda se lembra da ameaça de Kruschev para o ocidente semi-capitalista – “nós vamos enterrar vocês”? Ou a promessa de Mao que o Grande Salto Adiante deveria sustentar a economia chinesa a ponto desta ultrapassar a do Reino Unido num prazo de 15 anos? Agora, o espírito frankfurtiano manda: Assuma que o capitalismo irá superar seus concorrentes em quase todas as circunstâncias, enquanto transforma cada aceitação em um novo tipo de maldição (“de toda forma, nós nunca quisemos o crescimento, isso só gera alienação, aliás, você não ficou sabendo que os ursos polares estão se afogando…?”).

Do Le Voyage de Baudelaire, com sua triste descoberta de que o vício humano se repete universalmente mesmo nas mais exóticas localidades, até as leituras mais de esquerda de Philip K. Dick enquanto uma denúncia gnóstica da mudança comercializada, a variedade e a inovação capitalista foram totalizadas como diferença sem diferença essencial, apenas mais da mesma dissimilaridade sem sentido. O grande mestre desse movimento é Arthur Schopenhauer, quem empregou o rigor filosófico formal como um modo de apreensão transcendental. Sendo o tempo fonte de nossa desgraça – a ‘Prisão de Ferro Negro’ de Philip K. Dick – como podemos esperar que algum tipo de evolução possa nos salvar? Assim o Miserabilismo Transcendental constitui-se como um inexpugnável modo de negação. Desnecessário dizer que nenhum resíduo substancial do historicismo marxiano permanece na visão ‘comunista’ dessa postura. Na verdade, com a economia e a história largamente abandonadas, tudo que sobrevive de Marx é um pacote psicológico de ressentimentos e descontentamentos, redutíveis à palavra ‘capitalismo’ em seu emprego vago e negativo: como o nome de tudo que machuca, insulta e desaponta.

Samantha Cristoforetti/ Nasa 31/03/2015

Samantha Cristoforetti/ Nasa 31/03/2015

Para o Miserabilista Transcendental, ‘Capitalismo’ é o sofrimento do desejo transformado em ruína, o nome para tudo que pode ser desejado no tempo, uma tantalização intolerável cuja natureza definitiva é desmascarada pelo Visionário Gnóstico como perda, decrepitude e morte, e na verdade, não é sem motivo que o capitalismo deve tornar-se objeto dessa difamação ressentida. Sem apego a mais nada além de sua exuberância abismal, o capitalismo identifica a si mesmo como um desejo de tal grau cuja superação não pode ser imaginada, rogando desavergonhadamente por qualquer estímulo que possa contribuir ao incremento do instinto economizante para suas iniciativas produtivas continuamente multiplicantes. Seja lá o que você quer, o capitalismo é o modo mais confiável para obtê-lo, e pela absorção de toda fonte de dinamismo social, o capitalismo transforma o crescimento, a mudança e até mesmo o próprio tempo em componentes integrantes de sua ilimitada tendência aglutinadora.

‘Rumo ao crescimento’ significa agora ‘Siga (duro) para o capitalismo’. É cada vez mais difícil lembrar que essa equação já poderia, uma vez, ter parecido controversa. Para a esquerda ela já pôde, uma vez, ser desdenhada como algo risível. Esse é o novo mundo assombrado pelo fantasma dispéptico do Miserabilismo Transcendental.

Talvez sempre exista uma moda anticapitalista, mas cada uma delas se tornará ultrapassada, enquanto o capitalismo – tornando-se cada vez mais hermeticamente identificado com sua própria superação – será sempre, inevitavelmente, a última novidade. ‘Meios’ e ‘relações’ de produção têm simultaneamente se emulsificado no interior de redes competitivas descentralizadas sob controle numérico, tornando as esperanças paleomarxistas de extrair um futuro pós-capitalista da máquina capitalista manifestadamente inconcebíveis. As máquinas têm sofisticado a si mesmas para além da possibilidade de utilidade socialista, encarnando mecanismos de mercado no interior de seus interstícios nano-engendrados e auto-evoluindo por algoritmos quasi-darwinianos que constroem hipercompetição no seio da ‘infraestrutura’. Já não é apenas a sociedade, mas o próprio tempo, que tomou a ‘via capitalista’.

Daí o silogismo Miserabilista Transcendental: O tempo está do lado do capitalismo, o capitalismo é tudo que me deixa triste, então o tempo deve ser mau.

Os ursos polares estão se afogando, e não há nada que possamos fazer.

Samantha Cristoforetti/ Nasa 31/03/2015

Samantha Cristoforetti/ Nasa 31/03/2015

O capitalismo continua acelerando, apesar de já ter realizado inovações jamais previstas pela imaginação humana. Afinal, o que é a imaginação humana? É uma coisa relativamente insignificante, apenas um subproduto da atividade neural de uma espécie de primata terrestre. O capitalismo, ao contrário, não tem limite externo, ele consumiu vida e inteligência biológica para criar uma nova vida e um novo plano de inteligência, muito além da previsão humana. O Miserabilista Transcendental tem o direito inalienável de se aborrecer, é claro. Acha isso novo? Não é nada mais que a mudança.

Ao que o Miserabilista Transcendental não tem direito é à pretensão de uma tese positiva. O sonho marxista de dinamismo sem competição era simplesmente um sonho, um sonho monoteísta reapresentado, o lobo repousando com o cordeiro. Se tal sonho conta como ‘imaginação’, então imaginação não é nada mais do que um defeito das espécies: a embalagem da contradição brega tal como fantasias utópicas, para ser voltada contra a realidade a serviço da negatividade estéril. ‘Pós-capitalismo’ não tem significado real, exceto um fim ao motor da mudança.

A vida continua, e o capitalismo é vida de uma forma como nunca foi feita antes. Se isso não conta como ‘novo’, então a palavra ‘novo’ foi despida a uma representação vazia. Ela precisa ser realocada à única coisa que sabe como usá-la efetivamente, à animalização regenerativa do destino na evocação de Shoggoth (NT: entidade sobrenatural do terror cósmico elaborado por H.P. Lovecraft), ao desembestado detentor de tamanha infinita plasticidade que a natureza se deforma e se dissolve diante dele. Para A Coisa. Ao Capitalismo. E se isso faz o Miserabilista Transcendental infeliz, a simples verdade da questão é: Qualquer coisa faria.

Samantha Cristoforetti/ Nasa 31/03/2015

Samantha Cristoforetti/ Nasa 31/03/2015


Veja também:

#Accelerate: The Accelerationist Reader

Nick Land – Fanged Noumena; Collected Writings 1987-2007

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