Nick Land – Fanged Noumena: Collected Writings 1987-2007

Dando continuidade ao post anterior, o Overqüil apresenta agora um dos autores presentes na coletânea #Accelerate: The Accelerationist Reader, o filósofo da cibernética Nick Land.

Nascido em 1962, Land é ex-professor de Filosofia Continental da Universidade de Warwick e co-fundador do Cybernetic Culture Research Unit (Ccru). É autor de The Thirst for Annihilation: Georges Bataille and Virulent Nihilism e de Fanged Noumena: Collected Writings 1987-2007Desta última obra selecionamos alguns trechos da introdução, aqui traduzidos pelo Overqüil.

Você pode adquir a obra aqui, ou baixar gratuitamente aqui.


Land 1

[Nick Land – Fanged Noumena; Collected Writings 1987-2007 – Editada por Ray Brassier e Robin MacKay,Urbanomic, Londres, 2011, 666 páginas]

Introdução dos editores [Trad. Overqüil]

A obra de Nick Land habita uma anarquitetura desordenada, um espaço atravessado por vetores-rato e lobo, conjurando uma metafísica esquizofrênica. Tecnologias avançadas invocam entidades ancestrais; a voz humana se desintegra em um uivo traumático cósmico; a civilização se lança em direção a uma morte artificial. Sinistras subculturas musicais se aliam a cultos mórbidos, patifes de inteligência artificial são perseguidos em criptas labirínticas por policiais-Turing, e cogumelos são visto na Europa num laboratório de paranoia de um circuito global cyberpositivo que alcança sua densidade infinita no ano de 2012, virando a modernidade para seja lá qual rumo que tenha sido definido a partir das regiões remotas da singularidade que se aproxima. [Nota do Overqüil: sobre a paranoia envolvendo um ‘cogumelo na Europa’ ver aqui]

Os escritos de Land vinculam-se a um gênero próprio, juntando fontes díspares da filosofia, literatura, ciência, ocultismo e pulp fiction (Immanuel Kant, William Gibson, Deleuze-Guatarri, Norbert Wiener, Kurt Gödel, Kenneth Grant, Exterminador do Futuro and Apocalypse Now, Antoin Artaud, H.P. Lovecraft…). O resultado é um denso vortex de combinações alucinatórias, frequentemente confuso, sobrepondo múltiplos pseudônimos, datas enigmáticas, e sistemas experimentais de codificação: Cthelll, Axsys, Unlife, A-Death, K-Space, Sarkon, Kurtz, o Clube de Cthulhu, Hummpa Taddum; 4077, 1501, 1757, 1949, 1981; Tic-Systems, Numerização Primitiva, Cabala Anglóssica, zigoses… A metafísica se liquefaz numa cosmogonia psicótica. A história da vida na Terra, da bactéria até a Microsoft, é a historia da supressão. Anônimo, o suprimido fervilha por debaixo da superfície da vida organizada, trancado em celas, sociedades, indivíduos (NT: selves), micro e macrópodes, emergindo espasmodicamente para propelir a história terrestre através de uma série de intensas fundações que têm convergido para um colapso. Agente exclusivo da revolução, o Anticristo não é mais unitário, mas muitos, um enxame de infiltrados mascarados do futuro, ‘prontos para comer sua TV, infectar sua conta bancária, e ceifar mitocôndrias do seu DNA’; costurando um Eros de-sublimado a um Tânato sintético de modo a acelerar a obsolescência da humanidade.

O que tudo isso tem a ver com a filosofia? De certo ponto de vista – defendido pelo próprio Land – nada, ou o mínimo possível. Land filiou a si mesmo a uma linhagem de pensadores renegados – Schopenhauer, Nietzsche, Bataille – que zombaram e menosprezaram o academicismo e empunharam a filosofia como um instrumento para exacerbar o enigma, romper a ortodoxia, e transformar a existência. Land é provavelmente a figura mais controversa que emergiu da bolorenta cultura da filosofia anglófona nas últimas duas décadas; apesar, ou talvez, por conta dessa controvérsia, os textos reunidos neste volume têm definhado numa penumbra até agora. Entre 1990, ano da publicação de seu único livro, e 1998, quando ele abdicou de sua carreira como professor de filosofia na Universidade de Warwick (Reino Unido) e abandonou a academia, Land acumulou distinta notoriedade em um milieu outrora caracterizado por um decoro entediante. Figura divisional, polarizadora, provocou tanto adulação quanto execração. Seus jabs na santíssima trindade da ‘filosofia continental’ – fenomenologia, desconstrução, e teoria crítica – atraiu a hostilidade de seus pares mais ortodoxos; e, enquanto seu anti-humanismo virulento afronta os filantropos conservadores, seu ataque à critica institucionalizada rendeu-lhe o opróbrio da Esquerda acadêmica. Os marxistas, em particular, indignaram-se com a defesa aguerrida de Land da heresia sociopata que advoga ‘ainda maior mercadização, sem inibidores, dos processos que estão botando abaixo o mundo social’ – a aceleração, mais do que a crítica, da desintegração capitalista da sociedade. E seu desprezo pela ortodoxia não era uma postura hipócrita enquanto buscava obstinadamente alguma promoção. Com uma completa ausência de ambição acadêmica, pagou de bom grado o preço por suas provocações, tanto pessoalmente quanto profissionalmente.

(…)

Da caracterização inicial por Land da tarefa revolucionária como empurrar o capitalismo para o ponto de sua autodissolução através da completa desinibição da síntese produtiva – uma desinibição anunciando a convergência da produção social e da esquizofrenia cósmica proclamada no Anti-Édipo – chegamos à crua aceitação de que não há um ‘além’ previsível à ‘infinita’ expansão do capitalismo (uma vez que o capitalismo é ‘o além’ [NT: beyondness] como tal). A admissão tática da desregulação, mercadização, mercadorização, e privatização – ilimitadas – como vetores da desterritorialização social, aparentemente se desdobra numa aceitação complacente das relações sociais capitalistas atual-existentes baseadas num compromisso transcendental, que empiricamente não pode ser provado como falso, da inextinguível capacidade capitalista para a inovação, que apenas um ‘miserabilista transcendental’ seria capaz de questionar:

“O capitalismo […] não tem limite externo, ele consumiu vida e inteligência biológica para criar uma nova vida e um novo plano de inteligência, muito além da previsão humana. O Miserabilista Transcendental tem o direito inalienável de se aborrecer, é claro. Acha isso novo? Não é nada mais que a mudança”. (Land, em ‘Critica ao Miserabilismo Transcendental’)

Land 2

land 3

Anúncios

Sobre Overqüil Comtrema

overquil.wordpress.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: