Esta civilização acabou. E todos sabem disso; por MacKenzie Wark

Abaixo a transcrição da fala de MacKenzie Wark que marcou o lançamento de seu último projeto Molecular Red: Theory for the Anthropocene [encontre o livro aqui].

Originalmente publicado em versobooks.com/blog. Traduzido pelo Overqüil.

molecular

Esta civilização acabou. E todos sabem disso.
por MacKenzie Wark

A boa notícia é: a civilização acabou. E todos sabem disso. E a boa notícia é: podemos todos começar a construir uma nova, aqui sobre as ruínas, e com os pedaços da antiga.

O subtítulo do Molecular Red é Theory for the Anthropocene. Você pode chamar de antropoceno, ou de misantropoceno, ou antropobsceno ou capitalosceno, ou, depois de Marx, você pode chamar de fissura metabólica. Bote a porcaria de nome que você queira, mas chame de alguma coisa, e reconheça que as coisas mudaram.

Molecular Red não é uma teoria do Antropoceno. Eu não sou um cientista. Ela é uma teoria para o Antropoceno. É uma teoria para ele na medida em que a vida social não pode mais ser pensada como uma esfera autônoma, separada da sua base de condições naturais de existência.

Existe certa dificuldade emocional em aceitar o fato que nosso mundo está desaparecendo em câmera lenta. É por isso que eu o apresento como uma boa notícia. E vamos em frente com a construção de um novo mundo a partir das ruínas do velho.

Que pequeno papel um livro de teoria pode desempenhar em tal empreitada? Bom, livros de teoria são sobre conceitos. Agora, um fato bom é predominantemente verdadeiro, mas sobre alguma coisa em particular. Um conceito bom é ligeiramente verdadeiro, mas sobre um monte de coisas. É um modo de amontoar fatos em padrões. Precisamos de novos padrões, porque temos novos fatos.

Novas teorias são feitas a partir de velhas teorias. Trata-se de observar a lacuna entre o mundo e o pensamento, e achar no arquivo do pensamento passado alguns padrões que podem dar conta do presente de forma a ser, ao mesmo tempo, um tanto familiar e um tanto estranho. Uma boa teoria apresenta tanto o estado atual do mundo quanto o estado passado do pensamento, sob uma nova luz.

Então quando alguém pretende pensar e trabalhar em uma situação que tem alguns fatos novos – e é isso que o Antropoceno é – então ele pode fazer isso com alguma teoria nova, ou uma velha nova, começando a partir de algumas estantes esquecidas do arquivo. Só não acho que os nomes consagrados que nós lemos – ou lemos sobre – na faculdade ou na mídia são de grande utilidade neste momento. A maioria dos nossos gurus da teoria são pensadores Holocênicos – de uma época quando a Terra era estável – e não pensadores Antropocênicos – desta época em que ela não é mais.

[Veja também no Overqüil: Nick Land – Fanged Noumena: Collected Writings 1987-2007]

Se vamos construir uma nova civilização, uma que pode lidar com um mundo instável, talvez devêssemos começar olhando através das ruínas da ultima tentativa de construção de uma nova civilização. A União Soviética durou menos que um século. A única coisa de que não podemos culpá-la seria em relação a sua ambição.

Começo o Molecular Red com Alexander Bogdanov. Ele foi um rival de Lênin pela liderança dos Bolcheviques. Depois que Lênin o expulsou, ele se dedicou à teoria, ciência, e ficção científica.  Aqui estão algumas coisas que penso fazerem dele um ancestral teórico útil para nós neste momento:

Primeiro, ele quase concebeu uma teoria da mudança climática, ainda em 1908, e quase descobriu o ciclo do carbono, por volta de 1920. Nada mal para um teórico marxista fugitivo e cientista amador.

Segundo, ele pensava que o trabalho tinha que derrotar o capital de modo que pudesse entrar em contato com um problema ainda maior: a relação do trabalho com a natureza.

Terceiro, ele não estava apegado a nenhuma teoria marxcológica dogmática. Ser um marxista era pensar do ponto de vista do trabalho, e testar e organizar o conhecimento e o trabalho colaborativamente. Acredite, essa é uma forma de fugir de argumentos muito, muito, chatos e intermináveis.

É um produto da guerra fria pensar que os soviéticos perderam e que os americanos venceram. Em Molecular Red eu conto uma parábola diferente. O fracasso da civilização soviética antecipa o declínio de nossa própria. Ambas sofrem do mesmo defeito trágico. As reluzentes superestruturas deste mundo, como as daquele, ignoram sua dívida com a base constituída pela natureza modificada pelo trabalho social.

De todos os loucos, excêntricos, e brilhantes teóricos, marxistas ou não, que surgiram no Século XX, o pobre e velho Bogdanov nunca foi redescoberto. Da nova esquerda aos pós-modernos, todos o ignoraram. Mas alguém reinventou muitos elementos centrais de seu método numa aparência mais contemporânea sem que ninguém percebesse. Essa pessoa foi Donna Haraway.

A segunda parte de Molecular Red busca inspiração em Haraway, o análogo recente do império americano ao Bogdanov do início da União Soviética. Eis algumas das coisas em sua teoria que acredito serem uteis para o nosso tempo.

Primeiro, assim como Bogdanov, ela pensa a partir do ponto de vista do trabalho, mas o trabalho é agora o ciborgue, aquela bagunça esquizo de carne e tecnologia, com seus muitos gêneros e raças. Somos, como ela diz, uma “confusão multi-espécie”.

Segundo, assim como Bogdanov, ela está interessada no espaço entre natureza e trabalho ou, como ela o chama, um mundo naturezacultura. Ela nunca isola o mundo natural e o trata como algo dado.

Terceiro, assim como Bogdanov, ela é uma animada, respeitosa, mas ainda assim crítica, entusiasta das ciências naturais. Me chama a atenção que se possa repreender pessoas que desrespeitam outros baseados na raça, gênero ou sexualidade, mas de alguma forma é normal desrespeitar aqueles cujas identidades estão baseadas no lifestyle científico.

[Veja: Medo de um planeta capitalista; Os astrônomos olham para as estrelas, mas enxergam apenas eles mesmos]

Todas as pessoas sãs e racionais aceitam que a mudança climática é real, e mesmo assim é normal desrespeitar as mesmas pessoas que praticam aquele tipo de ciência que produz o conhecimento sobre a mudança climática. Numa época em que os cientistas do clima recebem ameaças de morte, acredito ser vital que devemos deixar claro que estamos ao lado deles, e não com os negadores climáticos – e nem todos são de direita – que usam as velhas ferramentas do conhecimento humanista para descartar o Antropoceno.

Então, na segunda metade do Molecular Red, começo com Haraway, como uma guia para nossa civilização atual, tal como ela é, esse complexo militar-recreativo. De Bogdanov, Haraway, e seus respectivos parceiros, emprestei as ferramentas conceituais que podem nos ajudar a fazer três coisas, as quais irei expor aqui como questões.

Primeiro, o que significa hoje pensar a partir do ponto de vista do trabalho? Podem existir alianças entre aqueles que realizam todas as formas de trabalho: manual, intelectual, afetivo, precário, artístico, científico?

Segundo, podemos começar a atuar agora mesmo, em nossas instituições, em nossas vidas cotidianas, nossos movimentos sociais, na construção da capacidade de colaborar, construir uma vida que seja pelo menos em parte alheia à forma comodista?

Terceiro, pode existir algum uso para um tipo de imaginação utópica, mas de forma inversa ao que usualmente se entende por utópico? Ao contrário do ideal impossível, pode o utópico ser um modo inexoravelmente pragmático de propor possíveis formas de vida? Além do mais, foram os autores das utopias, não os das novelas burguesas, que fizeram as duras perguntas, sobre quem faz os trabalhos chatos e quem faz o trabalho sujo.

Essas três questões são os três problemas clássicos da teoria, a saber: O que posso conhecer? O que devo fazer? Pelo que posso esperar? Molecular Red é sobre viver e amar e atuar sobre esses problemas em tempos instáveis. Como disse Raoul Duke: quando as coisas ficam estranhas, os estranhos viram profissionais.  Então é tempo de voltar ao arquivo e abrir alguns armários estranhos. Iremos precisar de alguns novos ancestrais na nossa nova civilização.

[O motor do capitalismo é o lucro. Qual seria o do socialismo? Leia: O Vermelho e o Preto, por Seth Ackerman]

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Sobre Overqüil Comtrema

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