O legado de Destutt de Tracy; por Iain MacKenzie e Sinisa Maleseviç

O Overqüil selecionou e traduziu alguns trechos da introdução do livro Ideology After Poststructuralism, editado por Iain MacKenzie e Sinisa Malesevic. Confira o texto:


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O legado de Destutt de Tracy
por Iain MacKenzie e Sinisa Maleseviç

Ao contrário de muitos outros conceitos na teoria social e política, o conceito de ideologia não é um filho ilegítimo. Sabemos que seu pai foi o Conde Antoine Louis Claude Destutt de Tracy e que seu nascimento foi em 1796. E também sabemos que de Tracy tinha grandes planos para seu primogênito – se tornar uma ciência integral e universal das ideias. Mas, mais do que tudo, o pai da ideologia queria que seu rebento transcendesse e superasse as ideias que motivaram a Revolução Francesa e predominasse sobre seus desdobramentos imediatos. Para de Tracy o objetivo da ideologia era ‘propiciar um completo conhecimento sobre nossas faculdades intelectuais, e deduzir de tal conhecimento os primeiros princípios de todos os outros ramos de nosso conhecimento’ (de Tracy, 1826-27). Em outras palavras, o pai da ideologia compartilhava do objetivo definitivo do movimento Iluminista – estabelecer um método sólido e inquestionável pelo qual ideias corretas podem ser cientificamente identificadas de modo a promover o uso da razão na governança dos assuntos humanos para o aperfeiçoamento da sociedade como um todo. Essa grande ciência das ideias era então concebida como a última, definitiva e única medida da capacidade intelectual humana.

Também sabemos que de Tracy era um pai ambicioso. Com a vantagem da retrospectiva ficou claro que o filho imaginário de de Tracy falhou em prosperar em suas expectativas e que a ciência da ideologia acabou não vingando. Ao contrário, numa reviravolta paródica e tragicômica, o conceito inventado por de Tracy adquiriu significados bastante diferentes, dos quais a maioria está associado de uma forma ou outra à verdades, sistemática ou intencionalmente, distorcidas. Desde a denúncia feita por Napoleão ‘dos ideólogos’, o termo ideologia tem sido utilizado com conotações depreciativas, tipicamente em descrédito às visões, ações ou intenções dos oponentes, como nada mais do que um conjunto de mentiras sofisticadas. Neste exemplo mais marcante da virada dialética das aspirações iluministas, o sonho de uma ciência das ideias transformou-se no pesadelo do obscurantismo cego. Parece que de Tracy, apenas se tivesse como saber, admitiria que quaisquer que sejam as esperanças que alguém possa ter para os filhos, a verdade acaba sendo que eles próprios traçam suas vidas em direções completamente imprevisíveis por seus pais.

[Confira também no Overqüil: A relação enigmática entre filosofia e política, por Alain Badiou]

Assumir tal fato deixa os pais, frequentemente, com um sentimento de fracasso. Tal sentimento é superado de melhor forma, entretanto, reconhecendo-se que o legado de alguém geralmente se apresenta às outras gerações de forma mais profunda e fundamental do que inicialmente se pensava. Certamente, este é o caso de de Tracy. Primeiro, é frequentemente negligenciado o fato de que de Tracy legou muito mais à intelectualidade do que a denominação de um único termo. Seu conceito deixou uma contribuição significante para mais de duzentos anos (e contando) de debate sobre as possibilidades do uso analítico, sistematicamente reunido e organizado, do conhecimento sobre as ideias e valores humanos visando o avanço da sociedade. Apesar de que seu objetivo de construir uma genealogia abrangente do conhecimento humano que deveria nos dar a chave para o espírito humano tenha falhado, o conteúdo geral de seu projeto permanece central para a investigação social e política. A primeira realização de de Tracy foi a de superar a hegemonia da explicação religiosa e metafísica das ideias, de modo a identificar um método para a investigação crítica das fontes e desenvolvimentos do conhecimento. Por fazer as perguntas certas, ele pode ser considerado, sem sombra de dúvidas, figura chave no desenvolvimento da sociologia moderna e da filosofia do conhecimento. Em segundo lugar, a ambição de de Tracy de encontrar as ferramentas simples, práticas, e confiáveis, para a ação politicamente orientada e teoricamente sustentada, levou gerações a reconhecer a necessidade do desenvolvimento coerente, sistemático e realista de visões de mundo sociais e políticas, hoje conhecidas como ideologias – liberalismo, socialismo, conservadorismo, feminismo, etc. – numa tentativa de integrar a teoria social e política com a prática política do dia-a-dia. Aqui também, o desfecho das ações de de Tracy desencadearam muito mais do que seus imediatos resultados modestos. Terceiro, de Tracy estava entre os primeiros que anteciparam a ligação necessária entre conhecimento, modernidade e dominação. Muito antes de ser aplaudido por Conte, relutantemente aceitado por Weber, e denunciado por Foucault, de Tracy já havia entendido o papel central que a nova safra de intelectuais, os novos sacerdotes da modernidade, tinha na construção da verdade. Uma vez que de Tracy, de acordo com seu ambiente Iluminista, via esses novos intelectuais como a vanguarda do progresso social e político, não podemos deixar que seu elitismo e autoritarismo intelectual ofusquem nossa visão do legado que ele deixou. O que é importante é seu implícito reconhecimento da ligação profunda entre o poder e o conhecimento na modernidade.

Apesar do fato de que a visão de de Tracy de uma ciência unificada das ideias ser em si mesma algo geralmente confiado à história, sua concepção de ideologia – com tudo que ela implica sobre a relação entre teoria e prática, o papel dos intelectuais, e do status do conhecimento no mundo moderno – se tornou um espaço de profunda contestação e um trampolim de muitas das ideias que consideramos as mais inovadoras e desafiadoras da teoria social e política contemporânea. A maior evidência disso é o fato de que existem pouquíssimos grandes teóricos do social e da política que não desenvolveram, de uma forma ou de outra, pelo menos uma forma rudimentar de teoria da ideologia. Devemos, é claro, ser cuidadosos em atribuir demasiada importância a de Tracy, uma vez que nossas preocupações modernas com a ideologia decorrem de uma linhagem que tem como ponto de partida a obra de Marx e Engels. Devemos à Marx e Engels tanto a descrição da geração das ideias como a descrição das condições que devem ser encontradas por essas ideias para merecerem a afirmação de que estão completamente adequadas ao mundo que nos cerca. Resumindo, a ideologia foi historicizada por Marx e Engels. A descrição feita por eles de que diferentes ideias dominavam diferentes sistemas econômicos em diferentes épocas históricas deu ânimo novo à ideia de que o estudo da ideologia era o componente central de toda filosofia social e política séria. Talvez, mais importante que isso, Marx e Engels legaram ao estudo da ideologia a ideia de que sob as condições da produção econômica pós-capitalista, quando a produção não está mais cindida pela divisão de classe, não existirá nenhuma ideologia dominante para reforçar as falsas alegações sobre a natureza da realidade social e política. Tal alegação gerou uma vasta gama de especulações sobre a possibilidade de uma interação social e política não-ideológica, e não seria exagero dizer que muito dos trabalhos mais inovadores sobre a ideologia são aqueles que encaram de frente a dupla demanda de uma ideologia historicizada, e em alguns sentidos, super-abrangente, e uma descrição do desaparecimento, agora ou futuramente, das formas de vida social e política ideologicamente contaminadas.

Podemos notar isso se olharmos para leque de discussões sobre a ideologia depois de Marx e Engels. Para identificar algumas, essa preocupação é central nas obras de Lênin, Bernstein, Gramsci, Althusser, Geertz, Mannheim, Marcuse, Habermas, Gouldner, Parsons, Boudon, Freeden e Zizek. É claro que essas abordagens teóricas da ideologia diferem em muitas formas. Algumas focam na origem da ideologia, localizando-a no modo de produção capitalista (como os marxistas estruturais), outros estão procupados com seus poderes psicológicos, vendo a ideologia como uma fantasia do prazer (os psicanalistas sociais, por exemplo), alguns têm se concentrado na ideologia enquanto sistemas culturais (como os antropólogos simbólicos), outros enfatizando sua função social, percebendo-a como um cimento que mantém a sociedade coesa (por exemplo, os sociólogos funcionalistas), e assim por diante. São todas interpretações e entendimentos marcadamente diversos sobre a ideologia, geralmente com pouquíssimos pontos em comum. Entretanto, o que unifica todas elas é o reconhecimento da relevância e da necessidade do conceito de ideologia. Ainda que esses teóricos tenham se alinhado a uma avaliação positiva, negativa ou neutra da ideologia, ou optado por conceitos restritivos ou abrangentes de ideologia, ou desenvolvido interpretações materialistas ou idealistas da ideologia, poucos dos principais teóricos sociais do século XX desdenharam do conceito como sendo algo analítica ou heuristicamente irrelevante ou impreciso.

[Confira também no Overqüil: Crítica do Miserabilismo Transcendental, por Nick Land]

Com o desenvolvimento do pós-estruturalismo esse cenário mudou drasticamente. O pós-estruturalismo representa a primeira crítica verdadeiramente de fôlego ao legado de de Tracy. De diferentes graus, e por diferentes razões, os pós-estruturalistas optaram por fugir desse debate iniciado por de Tracy, e tipicamente rejeitam a ideia de que a discussão sobre a ideologia é relevante para nossas tentativas de entendimento do mundo contemporâneo. O esboço geral da crítica pós-estruturalista, para todas as diferentes versões em que tem sido articulada, pode ainda assim, ser resumida com certa simplicidade. Os pós-estruturalistas têm argumentado que o conceito de ideologia, desde sua gênese, permanece atrelado às problemáticas premissas humanistas que motivaram o Iluminismo. Dada a crítica pós-estruturalista do humanismo, a ideia que alguém pode ‘elevar-se acima de todas as perspectivas sociais particulares e alcançar uma definição não-ideológica da natureza do homem’ (O’Sullivan, 1989, p.x) é pensada como teoricamente estéril e politicamente perigosa. Ao passo que os textos clássicos do pós-estruturalismo, com frequência, seguem cuidadosamente repensando e problematizando outros baluartes do léxico teórico, a ideologia é alvo de fortes ataques e franca rejeição. A observação feita por Deleuze e Guattari nas páginas de abertura de Mil Platôs é indicativa da evidente rejeição pós-estruturalista da ideologia: ‘não existe nem nunca existiu ideologia’ (Deleuze e Guattari, 1988, p. 4).

O objetivo deste livro é explorar o significado e as consequências da crítica feita pelos pós-estruturalistas à ideologia, ao passo que evita tais estratégias de franca rejeição. Os capítulos que seguem buscam explorar as possibilidades para uma problematização mais matizada, a partir da perspectiva pós-estruturalista, da ideologia, e também explorar os recursos disponíveis dentro da teoria contemporânea da ideologia capazes de acomodar e/ou responder às suspeitas pós-estruturalistas sobre os pressupostos humanistas que orientam a teoria da ideologia.

(…)

Referências:

Deleuze, G. e Guattari, F. (1988) A Thousand Plateaus: Capitalism and Schizophrenia, vol. 2 (London: The Athlone Press).

de Tracy, A.L.C.D. (1826–27) Éléments d’idéologie – l’Idéologie (Brussels: A. Wahlen).

O’Sullivan, N. (ed.) (1989) The Structure of Modern Ideology (Aldershot: Edward Elgar).

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