A nova razão do mundo – Pierre Dardot & Christian Laval

A nova razão do mundo; ensaio sobre a sociedade neoliberal [Verso Books, Londres, 2013, 352 páginas, encontre aqui]
por Pierre Dardot e Christian Lavalthenewway

Introdução à edição inglesa [trad. Overqüil]

‘Ainda não terminamos com o neoliberalismo’: essa era a frase de abertura da introdução à edição original francesa deste livro, publicado em janeiro de 2009. Era uma questão de dissipar as ilusões criadas pelo colapso do Lehman Brothers em setembro de 2008 o mais rápido possível. Muitos na Europa e nos Estados Unidos pensaram que a crise financeira tinha tocado a marcha fúnebre do neoliberalismo e que a nova época veria o ‘retorno do estado’ e da regulação dos mercados. Joseph Stiglitz percorreu o planeta anunciando ‘o fim do neoliberalismo’, enquanto as principais figuras políticas, como o presidente francês Nicolas Sarkosy, anunciavam a reabilitação da intervenção governamental na economia.

Perigosas, na medida em que elas condiziam a uma desmobilização política, tais ilusões não foram uma surpresa para nós. Elas se baseavam em um difundido erro de diagnóstico que nosso livro se propõe a desafiar. Captar de forma equivocada o caráter do neoliberalismo, ignorar sua história, e perder suas profundas fontes sociais e subjetivas, foi condenar-se à cegueira e impotência face aos desenvolvimentos que logo se seguiram. Longe de enfraquecer as políticas neoliberais, a crise levou ao seu fortalecimento, na forma dos planos de austeridade colocados em prática pelos estados que eram cada vez mais ativos na promoção da lógica de competição nos mercados financeiros. Isso nos pareceu então, e parece mais claro ainda hoje, que uma analise da gênese e do funcionamento do neoliberalismo é o pré-requisito para uma resistência efetiva na Europa e no mundo. Ao mesmo tempo que busca estar em conformidade com o rigor da pesquisa acadêmica, este livro não é ‘acadêmico’ no sentido tradicional do termo, mas é acima de tudo uma obra de esclarecimento político sobre a lógica normativa representada pelo neoliberalismo. Resumindo: na nossa visão, entender o neoliberalismo é uma questão estratégica universal.

Um erro de diagnóstico

Desde o fim da década de 1970, e do começo da de 1980, o neoliberalismo foi geralmente interpretado tanto como uma ideologia quanto uma política econômica diretamente orientada por aquela ideologia. O núcleo duro da ideologia compreendia supostamente a identificação do mercado como uma realidade natural [1]. De acordo com esta ontologia naturalista, para alcançar o equilíbrio, a estabilidade e o crescimento, bastaria deixar essa entidade à sua própria sorte. Uma vez que qualquer intervenção governamental poderia apenas perturbar e interromper o processo espontâneo, a abstenção em relação a elas deveria ser encorajada. Assim interpretado, o neoliberalismo é convertido em uma pura e simples reabilitação do laissez-faire. No que diz respeito a sua implementação política, desde o inicio foi analisado de forma muito restrita – na perspicaz observação de Wendy Brown,

como uma ferramenta da política econômica estatal, com o desmantelamento da assistência social, taxação progressiva, e outros instrumentos de distribuição de riqueza, em uma mão, e com o estimulo da desimpedida atividade de capital via desregulamentação dos sistemas de saúde, trabalhistas e ambientais, na outra. [2]

Quando se admite que a ‘intervenção’ ocorra, ela é entendida exclusivamente como ações pelas quais o estado compromete as bases de sua própria existência diminuindo os compromissos de oferta publica de serviços anteriormente confiados a ele. Um intervencionismo puramente negativo, pode-se dizer, que não é nada mais do que um aspecto político ativo da organização do estado em seu próprio prejuízo – logo, baseado em um princípio anti-intervencionista.

[Veja também no Overqüil: #Aceleracionismo]

Não é nossa intenção contestar a existência e difusão dessa ideologia, qualquer coisa nesse sentido seria  negar que ela continua a fomentar as políticas econômicas massivamente encorajadas desde os anos de Reagan e Tatcher e que encontrar o maior de seus entusiastas no ‘maestro de Wall Street’, Alan Greenspan, com as consequências que estamos familiarizados [3]. O que Joseph Stiglitz acertadamente chamou de ‘fanatismo do mercado’ é o que o Wall Street Journal, o Economist, e seus equivalentes ao redor do mundo, melhor sabem sustentar perante seus leitores [4]. Mas o neoliberalismo está longe de ser reduzível a um fanático ato de fé na naturalidade do mercado. O profundo erro cometido por aqueles que anunciam a ‘morte do liberalismo’ é confundir a representação ideológica que acompanha a implementação das políticas neoliberais com a normatividade prática que caracteriza especificamente o neoliberalismo. Como resultado, temos o relativo descrédito que cerca a ideologia do laissez-faire atualmente que não previne o neoliberalismo de prevalecer mais do que nunca como um sistema normativo que possui certa eficiência – isto é, a capacidade de direção a partir das atuais práticas dos governos, empresas e, além deles, milhões de pessoas que não estão necessariamente conscientes do fato. Pois este é o xis da questão: como é que, apesar das consequências catastróficas nas quais as políticas neoliberais resultaram, tais políticas estão cada vez mais operantes, a ponto de empurrar estados e sociedades à crises políticas e regressões sociais ainda mais graves?  Como que tais políticas têm se desenvolvido e se radicalizado por mais de trinta anos sem encontrar resistência suficiente para limitá-las?

A resposta não está, e não pode ser, confinada aos aspectos ‘negativos’ das políticas neoliberais – isto é, a destruição programada das regulações e instituições. O neoliberalismo não se resume meramente a regras, instituições e direitos destrutivos. Ele também é produtor de certos tipos de relações sociais, certos modos de vida, certas subjetividades. Em outras palavras, na causa do neoliberalismo está nada mais e nada menos do que a forma de nossa existência – a maneira pelo qual somos levados a nos comportar, e a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define determinada norma existencial nas sociedades ocidentais e, para além destas, em todas as sociedades que as seguem no caminho da ‘modernidade’. Essa norma prescreve a todos que vivam em um mundo de competição generalizada; ela convida as classes assalariadas e as populações a se envolverem em conflitos econômicos contra outras; ela alinha as relações sociais com o modelo do mercado; ela promove a justificação de desigualdades cada vez maiores; ela ainda transforma o indivíduo, agora chamado a conceber-se, ele ou ela, como uma empresa. Por mais de um terço de século, essa norma existencial tem presidido sobre as políticas públicas, governado as relações econômicas globais, transformado a sociedade, e remodelado a subjetividade. As circunstâncias de seu triunfo são frequentemente descritas – em seu aspecto político (a conquista do poder pelas forças neoliberais), seu aspecto econômico (a expansão do capitalismo financeiro globalizado), seu aspecto social (a individualização das relações sociais em detrimento das solidariedades coletivas, a extrema polarização entre ricos e pobres), e seu aspecto subjetivo (a emergência de um novo sujeito, o desenvolvimento de novas patologias psíquicas). Essas são dimensões complementares da nova racionalidade global. Com isso queremos dizer que tal racionalidade é global nos dois sentidos do termo: é ‘de dimensão mundial’ e nisso obtém uma escala mundial; e, longe de estar confinada à esfera econômica, ela tende a totalizar – isto é, criar um mundo à sua semelhança através de seu poder para integrar todas as dimensões da existência humana. Uma racionalidade global é, ao mesmo tempo, uma ‘razão-mundo’ [5].

(…)


Notas:
[1] This naturalistic credo, associated with Jean-Baptiste Say and Frédéric Bastiat, was perfectly formulated by the French essayist Alain Minc as follows: ‘Capitalism cannot collapse; it is the natural condition of society. Democracy is not the natural state of society; the market – yes’ (Cambio 16, Madrid, 5 December 1994).
[2] Wendy Brown, Les Habits neufs de la politique mondiale. Néolibéralisme et néoconservatisme, Paris: Les Prairies Ordinaires, 2007, p. 37.
[3] Frédéric Basiat’s The Law was Ronald Reagan’s favourite book at the start of the 1960s. Cf. Alain Laurent, Le Libéralisme Américain, Paris: Les Belles Lettres, 2006, p. 177.
[4] See Joseph Stiglitz, Un autre monde. Contre le fanatisme du marché, Paris: Fayard, 2006 (the French translation of Making Globalization Work: The Next Steps to Global Justice, London: Allen Lane, 2006).
[5] The idea of a form of reason structuring the world is to be found in Max Weber, with this qualification Introduction to the English Edition that it essentially concerns the capitalist economic order, that ‘monstrous cosmos’ which ‘forces on the individual, to the extent that he is caught up in the relationships of the “market,” the norms of its economic activity’ (The Protestant Ethic and the ‘Spirit’ of Capitalism and Other Writings, ed. and trans. Peter Baehr and Gordon C. Wells, London: Penguin, 2002, p. 13). However, in a passage of the same work devoted to the ‘neutral’ and ‘impersonal’ character of love of one’s neighbour in Calvinism, we find the phrase ‘the rational structuring of the surrounding social cosmos’ (ibid., p. 76). In a sense, and on the express condition that the social is not reduced to one dimension of human existence among others, it might be said of neo-liberal reason that it is very precisely the rationality of our ‘social cosmos’.

(…)


Índice

Acknowledgments

Introduction to the English Edition
A Diagnostic Error; Neo-liberalism as Rationality; The Limitations of Marxism; The General Crisis of a Way of Governing Human Beings; Classical Liberalism and ‘Neo’-liberalism; Notes

Part One: The Intellectual Reformation
1 The Crisis of Liberalism and the Birth of Neo-Liberalism
2 The Walter Lippmann Colloquium, or The Reinvention of Liberalism
3 Ordo-Liberalism Between ‘Economic Policy’ and ‘Policy of Society’
4 Entrepreneurial Man
5 The Strong State as Guardian of Private Law

Part Two: The New Rationality
6 The Great Turn
7 The Ordo-Liberal Origins of the Construction of Europe
8 Entrepreneurial Government
9 Manufacturing the Neo-Liberal Subject

Conclusion: The Depletion of Liberal Democracy

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Sobre Overqüil Comtrema

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