Heróis, massacre e suicídio; por Franco ‘Bifo’ Berardi

Tradução do capítulo de abertura do livro Heroes: Mass Murder and Suicide, de Franco Berardi.


bifo

Quatro Notas à Guisa de um Prólogo
Franco Berardi [Trad. Overqüil]

1
Decidi escrever este livro em julho de 2012, depois de ler sobre o massacre em Aurora, Colorado, que aconteceu em um cinema que exibia o último filme do Batman. Uma mistura de repulsa e fascinação perversa sempre me atraiu a ler vorazmente sobre os autores desse tipo de massacre, um tipo que parece estar se proliferando no momento – particularmente nos Estados Unidos da América. Mas foi só quando li sobre James Holmes e o massacre de Aurora que decidi escrever sobre o assunto. Não fui estimulado a escrever por conta da violência e do absurdo que é um país onde qualquer pessoa, não importa se mentalmente perturbada, possa comprar armamento pesado. Já estamos todos bastante acostumados com isso. O que mais me impressionou foi a densidade metafórica de um ato que pode ser interpretado como que contrariando a separação entre espetáculo e vida real (ou morte real, o que dá no mesmo). Duvido que James Holmes já tenha lido Guy Debord. Frequentemente as pessoas agem sem ler os textos relevantes.  Ainda assim, o gesto de Holmes continha um sabor de situacionismo. Toda a história da vanguarda do século XX foi reunida lá, e monstruosamente reencenada. ‘Abolir a arte abolir a vida cotidiana abolir a separação entre arte e vida cotidiana’, disseram os dadaístas. Holmes, pelo que me ocorreu, queria eliminar a separação entre o espectador e o filme; ele queria estar no filme.

Então comecei a ler compulsivamente sobre tal massacre na exibição do filme do Batman. Meu interesse me levou a novas historias sobre outros homens (brancos, negros, velhos, jovens, ricos, pobres, mas sempre homens, nenhuma mulher – alguém sabe o porquê?) que atiraram e mataram pessoas, e a prosseguir pesquisando sobre matanças anteriores. A partir desses estudos, cheguei à conclusão de que o estágio atual do desenvolvimento mundial pode ser melhor compreendido se observado através desses tipos horríveis de loucura, mais do que através da loucura polida dos economistas e políticos. Vi a agonia do capitalismo e o desmantelamento da civilização a partir de um ponto de vista muito peculiar: crime e suicídio.

A realidade nua do capitalismo está em exibição. E ela é horrível.

2
O tema deste livro não é meramente o crime e o suicídio, mas em um sentido mais amplo o estabelecimento de um reino do niilismo e a tendência suicida que está permeando a cultura contemporânea, juntamente com uma fenomenologia do pânico, agressão e da violência resultante. Esse é o ponto de vista pelo qual observo esses assassinatos em massa, focando particularmente nas implicações espetaculares desses atos de matança, e em suas dimensões suicidas.

Não me importo com o serial killer convencional, o tipo de psicopata sádico que é atraído pelo sofrimento alheio e se satisfaz em ver pessoas morrendo. Estou interessado nas pessoas que estão, elas mesmas, sofrendo, e que se tornam criminosas porque esse é o modo tanto para expressar sua psicótica necessidade de publicidade e também para encontrar uma saída suicida para o inferno em que vivem. Escrevo sobre jovens como Seung-Hui Cho, Eric Harris, Dylan Klebold, e Pekka-Erik Auvinen, que se mataram depois de tentar atrair a atenção mundial pondo fim à vida de pessoas inocentes. Também escrevo sobre James Holmes, quem cometeu uma espécie de suicídio simbólico sem se matar de fato.

Escrevo sobre espetaculares assassinos suicidas porque eles são a manifestação extrema de uma das principais tendências de nossa época. Eu os vejo como heróis de uma era de niilismo e estupidez espetacular: a era do capitalismo financeiro.

[Leia também: Crítica do Miserabilismo Transcendental, por Nick Land]

3
No livro The Wretched of the Screen, Hito Steyerl relembra o lançamento do single ‘Heroes’ por David Bowie em 1977.

‘Ele canta sobre um novo tipo de herói, bem ao modo da revolução neoliberal e da transformação digital do mundo. O herói está morto – vida longa ao herói! Contudo, o herói de Bowie não é mais um sujeito, mas um objeto: uma coisa, uma imagem, um fetiche esplêndido – uma mercadoria encharcada de desejo, ressurrecto das ruínas de sua própria derrota. Apenas assista o videoclipe da música que você entenderá o porquê: o clipe mostra Bowie cantando para si mesmo de três ângulos simultâneos, com técnicas de sobreposição que triplicam sua imagem; Bowie não foi apenas clonado, ele foi acima de tudo transformado numa imagem que pode ser reproduzida, multiplicada, e copiada, um refrão que viaja sem dificuldades por comerciais de praticamente qualquer coisa, um fetiche que embala sua aparência glamorosa e serena pós-gênero como um produto. O herói de Bowie não é mais um super humano lidando com façanhas exemplares e extraordinárias, ele sequer é um ícone, mas um reluzente produto dotado de beleza pós-humana: uma imagem e nada mais do que uma imagem. A imortalidade deste herói não se origina mais em sua força para sobreviver a todas as provações possíveis, mas de sua habilidade de ser xerocado, reciclado, e reencarnado. A destruição irá alterar sua forma e aparência, ainda que sua substância permaneça intocada. A imortalidade da coisa está na sua finitude, não na sua eternidade. Em 1977, a banda punk The Stranglers ofereceu uma análise cristalina da situação declarando o óbvio: o heroísmo acabou. Trotsky, Lênin e Shakespeare estão mortos. Em 1977, enquanto esquerdistas seguiam para o funeral dos membros Facção do Exército Vermelho (NT: também conhecido como Grupo Baader-Meinhof) Andreas Baader, Gudrun Ensslin, e Jan Carl Raspe, a capa do disco dos Stranglers exibia sua própria coroa de flores vermelhas e declarava: NO MORE HEROES. Não mais. [1]

O herói, na tradição clássica, pertencia à esfera da imaginação épica, separado da tragédia e dos poemas líricos. O herói era aquele que subjugava a Natureza e dominava os eventos da história com sua coragem e força de vontade. Ele fundou a cidade e repeliu as forças demoníacas do mal. Essa visão ainda pode ser encontrada na época da renascença, e o príncipe de Maquiavel pode ser considerado o herói da narrativa política moderna: o homem que estabelece o estado nacional, constrói a infraestrutura para a industria e dá forma a uma identidade comum.

Essa forma épica de heroísmo desapareceu com o fim da modernidade, quando a complexidade e a velocidade dos eventos humanos solaparam a força da vontade. Quando o caos prevaleceu, o heroísmo épico foi substituído por gigantescas máquinas de simulação. O espaço do discurso épico foi ocupado por semio-corporações, dispositivos para a emancipação de ilusões amplamente compartilhadas. Esses jogos de simulação frequentemente tomam a forma de identidades, como as subculturas populares do rock, punk, cybercultura e tantas outras. Aqui está a origem da última forma moderna de tragédia: naquele limite onde a ilusão se confunde com a realidade, e identidades são percebidas como formas autênticas de pertencimento. É geralmente acompanhada por uma desesperada falta de ironia, a forma como os humanos respondem ao permanente estado de desterritorialização contemporânea decretando sua ânsia por pertencimento através de uma corrente de atos de assassinato, suicídio, fanatismo, agressão, guerra.

Acredito que seja apenas através da ironia e através de uma compreensão consciente da simulação que está no coração do jogo heroico, que o herói simulado da subcultura ainda tem alguma chance de salvação.

4
No ano de 1977 a história humana chegou a um ponto de inflexão. Os heróis morreram, ou melhor, eles desapareceram. Eles não foram mortos pelos inimigos do heroísmo, mas foram transferidos para outra dimensão: foram dissolvidos, transformados em fantasmas. Assim a raça humana, enganada por falsos heróis feitos de uma ilusória substância eletromagnética, perdeu a fé na realidade da vida e de seus prazeres, e começou a acreditar apenas na infinita proliferação de imagens. 1977 foi o ano em que os heróis desapareceram e migraram do mundo da vida física e da paixão histórica para o mundo da simulação visual e da estimulação nervosa.  Esse ano foi um divisor de águas: da era da evolução humana, o mundo mudou para a era da des-evolução, ou des-civilização.

O que foi produzido pelo trabalho e pela solidariedade social nos séculos de modernidade começou a ruir sob o processo de des-realização financeira predatória. A aliança conflituosa entre a burguesia industrial e os trabalhadores da industria – que deixou um sistema de educação pública, um sistema de saúde, transportes, e políticas de bem-estar como o legado material da era moderna – foi sacrificada em nome do dogma religioso do Deus-Mercado.

Na segunda década do século XXI a dilapidação pós-burguesa tomou a forma de um buraco negro financeiro. Este novo sistema começou a engolir e destruir o resultado de duzentos anos de laboriosidade e de inteligência coletiva, e transformou a realidade concreta da civilização social em abstração: figuras, algoritmos, ferocidade matemática e acumulação do nada em forma de dinheiro. A força sedutora da simulação transformou formas físicas em imagens efêmeras, submeteu a arte visual à difusão em massa, e sujeitou a linguagem ao falacioso regime da publicidade. No fim deste processo, a vida real desapareceu no buraco negro da acumulação financeira.

A questão agora é de ver o que restou da subjetividade e sensibilidade humana e de nossa habilidade para imaginar, criar e inventar. Os humanos ainda serão capazes de emergir desse buraco negro; de investir sua energia em uma nova forma de solidariedade e ajuda mútua? A sensibilidade de uma geração de crianças que aprenderam mais palavras pelas máquinas do que pelos seus próprios pais parece não ser capaz de desenvolver solidariedade, empatia e autonomia. A história foi substituída por um fluxo interminável de recombinações de imagens fragmentadas. A recombinação aleatória de atividades frenéticas precárias tomou o lugar consciência e da estratégia política. Pra falar a verdade, eu não sei se existe alguma esperança além do buraco negro; se lá repousa um futuro para além do futuro imediato.

De onde existe perigo, entretanto, também advém a salvação – disse Hölderlin, o poeta mais amado por Heidegger, o filósofo que anteviu a futura destruição do futuro. Agora, a tarefa dada é mapear o deserto onde a imaginação social foi congelada e submetida ao imaginário corporativo recombinante. Apenas a partir dessa cartografia que poderemos avançar na descoberta de uma nova forma de ação que, substituindo a arte, a política e a terapia com um processo de re-ativação da sensibilidade, possa ajudar a humanidade a se reconhecer novamente.

Nota:
[1] Hito Steyerl, The Wretched of the Screen, p. XX.

[Confira também no Overqüil: Esta civilização acabou. E todos sabem disso; por MacKenzie Wark]


Mass Murder and Suicide, Verso Books, 2015, 224 páginas.

Contents
Acknowledgements
Four Notes in Guise of a Prologue
1. The Joker
2. Humanity Is Overrated
3. Winning for a Moment
4. Cho’s Psychosphere
5. What Is a Crime?
6. The Automaton
7. Memory
8. You People Will Never Be Safe
9. Suicidal Wave
10. A Journey to Seoul
11. What Should We Do When Nothing Can Be Done?
Bibliography
Filmography

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Sobre Overqüil Comtrema

overquil.wordpress.com

  1. Adriel Dias

    O livro (Heróis, massacre e suicídio) tem todo traduzido em português?

    Curtir

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